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Já discutimos aqui como os poetas (assim como todos nós) são fingidores.

Fernando Pessoa era tão fingidor, mas tão fingidor, que criava pessoas fictícias – cada uma com sua própria personalidade – e atribuía a elas poemas que não tinham muito a ver com seu estilo. Eram seus heterônimos.

Diferente do pseudônimo, que é apenas um nome falso, os heterônimos, pelo menos os de Pessoa, têm uma história completa: aniversário, cidade natal, escolaridade, emprego e até data da morte.

Eis alguns exemplos de poemas assinados como heterônimos:

Sim
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
(Fernando Pessoa/Ricardo Reis)

The Times
Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do Times, claro, inclassificável, lido,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo…
Santo Deus!… E talvez a tenha tido!
(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)

Pouco me importa
Pouco me importa.
Pouco me importa o quê?
Não sei: pouco me importa.
(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

Tão cedo passa tudo quanto passa
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

(Fernando Pessoa/Ricardo Reis)

Há sem dúvida …
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossivel,
Há sem duvida quem não queria nada –

Tres tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possivel,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)

O Guardador de Rebanhos – XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra,
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento…

(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

Será que certas pessoas são tão prolíficas, tão inquietas que precisam se multiplicar para dar vazão a tanto sentimento, tanta criatividade? Quantas pessoas múltiplas será que existe por aí, criando por dois ou por três?

E você, quantos heterônimos tem?

Para mais poemas e informações de Pessoa, aqui vão dois ótimos sites:
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa – Obra Poética

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