Tags

, , , , ,

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Poetas são fingidores.
Ao contrário do que se pensa, não é porque o poeta escreve com sentimento que tudo o que escreva seja derivado de experiências literalmente pessoais.
O poeta pode escrever com paixão sobre amores que na verdade não viveu.
Pode falar com intimidade de figuras históricas de um tempo que não é o seu.
Pode descrever com detalhes batalhas heróicas sem nunca ter ido à guerra.
Pode explanar sobre as agrúrias da maternidade mesmo sendo homem.

Artistas são fingidores.
Esta experiência sem compromisso com a experiência de fato, este fingimento está presente em todas as formas de arte.
O pintor desenha paisagens que só visitou em sua mente.
O escultor dá forma a figuras imaginárias, mitológicas.
O diretor de cinema produz fantasias baseadas em fatos reais.
O ator eu não preciso nem dizer.

Nós somos fingidores.
A vida imita a arte e nós, quase que poetas, recorremos ao fingimento no decorrer de toda a nossa vida.
Na birra manipuladora da criança.
No interesse das falsas amizades.
Nas desculpas de quem não sente culpa.
Nas verdadeiras intenções, as terceiras.
7 bilhões de fingidores.

Pinóquio, és um fingidor!